Na bomba do posto, a dúvida se repete toda semana: álcool ou gasolina? A resposta mais conhecida é a regra dos 70%. Se o preço do etanol for até 70% do preço da gasolina, abasteça com etanol; acima disso, com gasolina. É uma boa aproximação, mas é uma média. Cada carro tem a sua própria proporção, e a diferença entre acertar e errar pode valer dezenas de reais por mês.

Este artigo explica de onde vem a regra dos 70%, mostra como fazer a conta exata com o consumo do seu carro e indica quando a diferença é tão pequena que outros fatores pesam mais na decisão.

De onde vem a regra dos 70%

O etanol tem menos energia por litro do que a gasolina. Por isso, um carro flex percorre menos quilômetros com um litro de etanol do que com um litro de gasolina. Na média dos carros flex vendidos no Brasil, o etanol rende cerca de 70% do que a gasolina rende. Se um carro faz 10 km/l com gasolina, faz algo perto de 7 km/l com etanol.

A regra dos 70% vem daí. Se o etanol rende 70% da gasolina, ele só compensa quando custa 70% ou menos do preço dela. Com gasolina a R$ 6,00, o etanol compensa até R$ 4,20. A partir disso, a gasolina passa a ser mais barata por quilômetro rodado.

O problema é que a proporção real varia de carro para carro. Motores mais modernos, com injeção direta e taxas de compressão maiores, aproveitam melhor o etanol, e em alguns modelos a proporção chega a 72% ou 75%. Em outros, fica em 65% ou 68%. O uso também muda o resultado: na estrada, a relação pode ser diferente da cidade, e o frio piora o desempenho do etanol.

Gráfico do artigo Álcool ou gasolina: a regra dos 70% e o consumo do seu carro.
Custo por km num flex 8,2 / 11,6 km/l

A conta exata com o consumo do seu carro

A forma mais precisa de decidir é calcular o custo por quilômetro de cada combustível. A conta é simples: preço do litro dividido pelos quilômetros que o carro faz com um litro. Com etanol a R$ 4,29 e consumo de 8,2 km/l, cada quilômetro custa R$ 0,523. Com gasolina a R$ 6,29 e consumo de 11,6 km/l, cada quilômetro custa R$ 0,542. O etanol é mais barato.

Outra forma de chegar à mesma conclusão é calcular a proporção de equilíbrio do seu carro: divida o consumo com etanol pelo consumo com gasolina. No exemplo, 8,2 dividido por 11,6 dá 70,7%. Esse é o ponto de virada desse carro específico. Se o preço do etanol dividido pelo da gasolina ficar abaixo de 70,7%, o etanol compensa. No exemplo, R$ 4,29 dividido por R$ 6,29 dá 68,2%, abaixo do equilíbrio.

Se o etanol subir para R$ 4,49, a proporção vai para 71,4%, acima do equilíbrio de 70,7%. A gasolina passa a ser mais barata, por pouco: R$ 0,542 contra R$ 0,548 por quilômetro. Pela regra genérica dos 70%, a decisão seria a mesma, mas há casos em que a regra genérica erra.

Como descobrir o consumo real do carro

O consumo informado no painel ou na etiqueta do Inmetro é uma referência, mas o consumo real depende de como, onde e com que carga o carro é usado. A forma mais confiável de medir é o método do tanque cheio.

Encha o tanque até o desarme da bomba e zere o hodômetro parcial. Rode normalmente, no seu uso habitual. No abastecimento seguinte, encha o tanque de novo e anote os litros que couberam. Divida os quilômetros do hodômetro parcial pelos litros: esse é o consumo do trecho. Repita algumas vezes com cada combustível para ter uma média confiável.

Na troca de combustível, há um cuidado. Como sobra um pouco do combustível anterior no tanque, o primeiro tanque após a troca mistura os dois. Para medir o consumo puro de etanol ou de gasolina, faça pelo menos dois tanques seguidos com o mesmo combustível. A planilha de controle de combustível da Calcutudo faz essa conta automaticamente a cada abastecimento.

Três passos do artigo Álcool ou gasolina: a regra dos 70% e o consumo do seu carro.
A mesma ordem que a calculadora segue.

Quando a diferença é de centavos

Em muitas semanas, o resultado fica muito perto do empate. Nesses casos, a diferença de custo por quilômetro é de poucos centavos, e outros fatores podem pesar mais na decisão.

A autonomia é um deles. Como o etanol rende menos, o tanque cheio de etanol leva o carro mais perto do posto seguinte. Para quem roda muito, isso significa mais paradas. O desempenho é outro: muitos motores entregam um pouco mais de potência com etanol, o que alguns motoristas preferem. A partida a frio, que era um problema em carros antigos, praticamente desapareceu nos flex modernos, mas em regiões muito frias o etanol ainda pode exigir mais do motor.

Há também o fator ambiental. O etanol de cana é renovável e emite menos carbono no ciclo completo de produção e uso. Para quem valoriza isso, um pequeno custo a mais pode ser aceitável.

Misturar combustíveis faz mal?

Não. Os carros flex foram projetados para funcionar com qualquer proporção de etanol e gasolina, de zero a 100%. A injeção eletrônica identifica a mistura em poucos quilômetros e ajusta o funcionamento do motor. Não é preciso esvaziar o tanque para trocar de combustível.

Vale lembrar que a gasolina comum vendida no Brasil já contém etanol anidro misturado por lei, numa proporção definida pelo governo. Por isso, mesmo quem abastece só com gasolina já usa uma parte de etanol.

Gasolina aditivada e premium

A gasolina aditivada tem detergentes que ajudam a manter o sistema de injeção limpo. Ela custa um pouco mais e, na maioria dos carros comuns, não melhora o consumo de forma perceptível. A gasolina premium tem octanagem maior e é indicada para motores de alta compressão. Em carros comuns, não traz ganho de desempenho nem de consumo que justifique o preço.

Se você usa aditivada ou premium, a conta é a mesma: informe o preço e o consumo dela no lugar da gasolina comum.

Quanto isso representa no mês

Para quem roda 1.500 quilômetros por mês, uma diferença de R$ 0,02 por quilômetro vale R$ 30,00 por mês, ou R$ 360,00 por ano. Para quem roda pouco, a mesma diferença quase não aparece. Por isso, motoristas de aplicativo e quem usa o carro para trabalhar ganham mais ao acompanhar os preços toda semana.

Como usar a calculadora

A calculadora de álcool ou gasolina da Calcutudo pede o preço do litro de cada combustível e o consumo do seu carro com cada um. O resultado mostra qual compensa, o custo por quilômetro de cada um, a proporção de preços, a proporção de equilíbrio do seu carro e a economia a cada mil quilômetros. Para planejar uma viagem, use depois a calculadora de custo de viagem com o combustível escolhido. E, para medir o consumo real abastecimento a abastecimento, a planilha de controle de combustível faz a média por você.

Perguntas frequentes

A regra dos 70% funciona?

Como média, sim. Mas cada carro tem a sua proporção: há modelos em que o etanol rende 65% da gasolina e outros em que rende 75%. A conta com o consumo do seu carro é mais precisa.

Como saber o consumo do meu carro?

Pelo método do tanque cheio: encha, zere o hodômetro parcial, rode e divida os quilômetros pelos litros do próximo abastecimento. A etiqueta do Inmetro dá uma estimativa.

Posso misturar etanol e gasolina?

Pode. Carros flex aceitam qualquer proporção, e a injeção se ajusta sozinha. A gasolina comum já sai da bomba com etanol anidro misturado por lei.

Vale trocar de combustível por centavos?

Quando a diferença por quilômetro é muito pequena, outros fatores pesam mais: autonomia menor do etanol, mais paradas no posto e o desempenho do motor. A economia em mil quilômetros ajuda a decidir.